Paleontólogo americano afirma que a arte rupestre é obra de jovens - com intenção lúdica, não mística
As figuras de animais e homens pré-históricos pintadas nas cavernas há dezenas de milhares de anos são vistas como traços de narrativas antigas ou rituais místicos. O paleontólogo americano Russell Dale Guthrie discorda dessa tese. Para ele, grande parte da arte produzida por nossos ancestrais do tempo das cavernas foi feita por jovens, por pura diversão. Em seu livro ainda não lançado no Brasil, The Nature of Paleolithic Art (A Natureza da Arte Paleolítica), Guthrie reacende a polêmica sobre a natureza da arte ancestral. Para ele, era um exercício de criatividade. Afinal, no mundo nada amigável e frio da Era Paleolítica, ser criativo poderia ser essencial para a sobrevivência. "Essa é a maravilhosa história de nossa evolução", afirma.
De Fairbanks, no Alasca, onde mora, Guthrie falou a ÉPOCA.
ÉPOCA > Por que os homens pré-históricos pintavam as cavernas? No universo acadêmico, a explicação mais aceita para as pinturas é que fariam parte de rituais místicos relacionados à fecundidade. Ou seriam uma espécie de magia para deixar os animais caçados mais vulneráveis. É verdade?
Russell Dale Guthrie > Existe a interpretação de que a arte do Paleolítico tinha significado religioso ou espiritual. Porém, há pouca evidência de que isso seja verdade. A arte mística é marcada por caracteres de repetição, criaturas bizarras, estilização. E essas características não estão presentes nas cavernas. A arte paleolítica pode ser explicada como a maneira natural pela qual as pessoas dessa época interagiam com o ambiente e uns com os outros. Eu acho que essas pinturas foram feitas por pessoas mais racionais, muito espertas, que usavam sua inteligência para sobreviver e interagir. E a arte ia muito além das cavernas.
ÉPOCA > Onde mais se pintava?
Guthrie > É um equívoco comum pensar que a arte de mais de 10 mil anos atrás tenha sido toda feita dentro de cavernas. Grande parte está em sítios arqueológicos ao ar livre. São gravuras feitas em pedras calcárias ou em ardósia, em chifres, em marfim e em ossos. Porém, alguns lugares conservaram essas pinturas melhor, como as cavernas.
ÉPOCA > Quem eram os autores dessas pinturas?
Guthrie > Os dados mostram que homens e mulheres de todas as idades participaram da arte paleolítica. Pelos temas pode se chegar a essa conclusão. Mas também usei um programa de computador para comparar o tamanho das mãos de seres humanos atuais com as marcas com tinta encontradas junto às pinturas. Assim, foi possível dizer estatisticamente o sexo e a idade dos donos dessas impressões. A maioria era de homens jovens. Uma possível explicação para isso é que as mulheres costumavam usar materiais menos duradouros, como fibras, couros, peles e pratos. Os homens trabalhavam com materiais mais duráveis: pedras, ossos, chifres e marfim. O fato de as mãos masculinas serem mais freqüentes também pode ser explicado pelos homens serem mais propensos a correr riscos. E suponho que naquela época as cavernas eram lugares perigosos. Você ficava sem luz, estava perdido. E os jovens costumam estar mais dispostos a enfrentar riscos que os homens mais velhos. Há uma grande tendência de muitas das artes terem sido feitas por jovens. Eu não diria a maior parte, mas uma grande fração.
ÉPOCA > O tipo de desenho confirma essa conclusão?
Guthrie > Nas mais de 3 mil imagens mostradas em meu livro, fica claro que a maior parte é rudimentar, quase grosseira. É o exato tipo de imagem que ainda hoje é feita quando se está aprendendo a desenhar. É um erro pensar que grande parte da arte paleolítica tenha sido feita por grandes pintores.
ÉPOCA > Por que muitas pinturas retratam animais, órgãos sexuais femininos e silhuetas de mulheres?
Guthrie > Como os adultos, os jovens desenham o que é mais excitante para eles. No tipo de grupo em que viviam, o status vinha de ser um caçador audaz. Assim, conquistava-se o respeito dos pares, além da admiração das garotas, com o objetivo de ter filhos saudáveis e ser bem cuidado na velhice. Já a visualização de partes da anatomia feminina pode ter um grande potencial de excitar os homens.
ÉPOCA > É possível comparar a arte feita por jovens pré-históricos aos grafites dos adolescentes atuais?
Guthrie > Não acredito nisso de maneira nenhuma. Hoje, há mais propósitos políticos, não de diversão. Tem um tom de discordância, de se rebelar contra a sociedade.
ÉPOCA > Qual era a finalidade das pinturas, então, para os jovens pré-históricos?
Guthrie > As obras de arte preservadas são uma relíquia de um tipo de brincadeira, a brincadeira da criatividade. Nossa evolução é resultado de nossa vivência ao ar livre, que nos deixava indefesos. Foi preciso muita inteligência, e não força para sobreviver e prosperar. A evolução de um tipo especial de comportamento nos permitiu desenvolver e praticar nossa inteligência: o brincar, uma atividade auto-recompesadora. Ela permite errar sem sofrer sérias conseqüências. E a arte era isso, uma brincadeira exploratória.
ÉPOCA > Essa arte paleolítica não teria significados místicos?
Guthrie > As razões pelas quais fazer arte são tão auto-recompensadoras são obscuras. É por isso que os acadêmicos têm se desviado em direção ao xamanismo, à magia e a outras motivações espirituais para tentar entender as pinturas. Mas as razões são muito mais profundas e universais. Biológicas, eu diria. Fazer arte de qualquer tipo é aprender a pensar diferente, a produzir coisas novas, a exercer a criatividade.
ÉPOCA > É possível afirmar que os jovens que fizeram essas pinturas há 40 mil anos tinham um comportamento similar ao dos adolescentes de hoje?
Guthrie > As evidências do conhecimento moderno mostram que todas as espécies evoluíram e que os seres humanos também são criaturas de nosso passado natural evolucionário, não produto de uma criação especial. Muitas de nossas inclinações são inatas. Alguns antropólogos ignoram essa evidência. Eles ignoram que existem comportamentos comuns a várias culturas. E o uso da criatividade é um deles. O contrário disso seria acreditar que o ambiente há 40 mil anos determinaria uma cultura tão diferente da nossa que jamais poderíamos compreendê-la.
RUSSELL GUTHRIE
PRESA Guthrie segura o maxilar de um mamute. Arte rupestre narra histórias de caçadores
QUEM É ?
Professor emérito do Instituto de Biologia Ártica da Universidade do Alasca
ONDE PESQUISA ?
Estudou sítios arqueológicos na África, Austrália, Europa e Sibéria
O QUE PUBLICOU?
Frozen Fauna of the Mammoth Steppe: the Story of Blue Babe, sobre mamíferos pré-históricos
Fonte
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